Mulher de Moraes é apontada em contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master
Polícia Federal encontrou no celular de Daniel Vorcaro mensagens que mostram Viviane Barci de Moraes enviando a minuta do acordo, enquanto colunistas ligados ao governo contestam que o contrato tenha validade jurídica
Um contrato de R$ 129 milhões entre o escritório de advocacia da esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e o Banco Master, instituição liquidada pelo Banco Central em novembro de 2025 em meio a um dos maiores escândalos financeiros recentes do país, virou alvo de investigação da Polícia Federal e de disputa política acirrada entre veículos de diferentes linhas editoriais.
O que a Polícia Federal encontrou
Segundo reportagem do Correio Braziliense baseada em material apreendido pela Polícia Federal, Viviane Barci de Moraes, advogada à frente do escritório Barci de Moraes Advogados, enviou pessoalmente, em 17 de janeiro de 2024, a minuta do contrato diretamente a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, por mensagem de WhatsApp. Vorcaro teria respondido cinco dias depois, em 22 de janeiro, tratando da logística para assinatura. O acordo original, no entanto, é datado de janeiro de 2023, o que sugere que a relação entre o escritório e o banco já existia antes da formalização encontrada nas mensagens.
O que o contrato previa
O valor total de R$ 129 milhões estava estruturado em parcelas de R$ 3,6 milhões mensais ao longo de 36 meses, entre 2024 e 2027. De acordo com a coluna de Andreza Matais, publicada pelo Metrópoles, o contrato não tinha como objeto uma causa específica do banco, mas sim assessoria jurídica geral, cobrindo a representação da instituição perante o Ministério Público, a Polícia Federal, o Judiciário, o Banco Central, a Receita Federal e o Congresso Nacional, conforme a necessidade que surgisse. Dois dos três filhos do casal também atuam no escritório da família.
Os pagamentos já realizados
Apesar de o contrato prever pagamentos até 2027, ele foi interrompido com a liquidação do banco. Ainda assim, segundo a CNN Brasil, entre 2024 e 2025 o escritório já havia recebido R$ 80,2 milhões do Banco Master, valor equivalente a mais da metade do total previsto. A Receita Federal, segundo a mesma reportagem, chegou a sinalizar que a remuneração chamava atenção por superar a atuação documentada da advogada em processos judiciais públicos ligados ao banco, ainda que o escritório tenha registrado 94 reuniões de trabalho e 36 pareceres jurídicos ao longo do período do contrato.
Como o caso veio à tona
O material que embasa as reportagens foi encontrado em uma cópia digitalizada do contrato, localizada no celular de Daniel Vorcaro durante a Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em novembro de 2025. As mensagens hoje fazem parte de um inquérito que apura, entre outros pontos, possível vazamento de informações sigilosas relacionadas à família do ministro Moraes.
A contestação sobre a validade do contrato
Nem todos os veículos tratam o caso da mesma forma. Em coluna publicada pelo Brasil247, o jornalista Eduardo Guimarães argumenta que o contrato, tal como divulgado, não existiria como instrumento jurídico válido, já que não haveria escritura pública, assinaturas reconhecidas em cartório ou registro do escritório em órgãos reguladores, segundo respostas obtidas via Lei de Acesso à Informação. Para o autor, o que circula seria apenas uma minuta ou proposta, não um acordo efetivamente firmado, e afirma que o ônus da prova cabe a quem sustenta que o contrato existiu na forma divulgada. A coluna não trata, no entanto, dos R$ 80,2 milhões que a reportagem da CNN Brasil aponta como já pagos ao escritório pelo banco no mesmo período.
O colapso do Banco Master
O contrato veio à tona no contexto do escândalo que derrubou o Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025 após anos de captação agressiva de recursos apoiada fortemente no Fundo Garantidor de Créditos, com rentabilidades consideradas insustentáveis por especialistas do setor. Daniel Vorcaro nega irregularidades e afirma ter sido vítima de uma ofensiva coordenada entre o Banco Central e instituições concorrentes para retirar o Master do mercado, tese contestada por analistas financeiros, que atribuem a liquidação ao próprio modelo de negócio do banco. Um novo inquérito da Polícia Federal também apura irregularidades no BRB, banco que adquiriu ativos do Master após a intervenção.
Contexto internacional
O nome de Viviane Barci de Moraes já havia ganhado repercussão internacional antes mesmo da revelação do contrato: em setembro de 2025, o governo dos Estados Unidos incluiu especificamente a esposa do ministro em uma lista de sanções, no bojo do embate entre o governo americano e o STF em torno de decisões de Alexandre de Moraes, o que ampliou o escrutínio público sobre os negócios da família.
Posicionamento oficial
Tanto a CNN Brasil quanto o Metrópoles afirmam ter procurado o gabinete do ministro Alexandre de Moraes, o escritório da família e representantes do Banco Master para comentar o caso, sem obter resposta até a publicação das respectivas reportagens.
O que vem a seguir
O caso segue sob apuração da Polícia Federal, dentro do inquérito mais amplo que investiga o colapso do Banco Master e a atuação de Daniel Vorcaro, que já prestou depoimento tornado público pelo ministro do STF Dias Toffoli. Até o momento, não há decisão judicial sobre a legalidade ou irregularidade do contrato, e o caso segue dividindo a cobertura da imprensa conforme a linha editorial de cada veículo.
