Flávio Bolsonaro aparece filiado a partido rival no TSE e fica sem registrar candidatura
TSE descarta hackeamento e aponta uso indevido de credenciais do partido Missão para efetivar a filiação, enquanto PL fala em fraude e prazo para registro termina neste sábado
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) esbarrou num obstáculo inesperado na reta final do prazo para registrar sua candidatura à Presidência da República. Nesta quinta-feira (13), quando a equipe jurídica da campanha foi reunir os documentos necessários para protocolar o pedido junto ao Tribunal Superior Eleitoral, descobriu que o cadastro do senador havia mudado de partido da noite para o dia. No sistema do TSE, Flávio deixou de constar filiado ao PL, legenda pela qual foi oficializado candidato em convenção realizada em São Paulo no fim de julho, e passou a aparecer filiado ao Missão, partido que não tem nenhuma relação com sua candidatura.
O TSE se manifestou sobre o caso e descartou a hipótese de invasão ao sistema. Segundo nota oficial do tribunal, a filiação de Flávio ao Missão "não foi fruto de hackeamento do sistema de filiação partidária, mas sim de uso indevido da ferramenta por parte de alguém que possuía as credenciais da legenda para efetivar filiações". O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, enviou representação à Procuradoria Geral Eleitoral e determinou a abertura de inquérito pela Polícia Judiciária para apurar o episódio. O tribunal confirmou ainda que o PL protocolou pedido de desfiliação do Missão, ainda sob análise.
O partido Missão também se pronunciou e negou qualquer responsabilidade pela filiação. Em nota, afirmou ter sido "vítima de uma tentativa de filiação fraudulenta de Flávio Bolsonaro" e disse ter tentado cancelar o registro no mesmo dia em que ele apareceu, sem sucesso, porque o pedido foi rejeitado pelo TSE. A legenda foi além e afirmou que o gabinete de Flávio já havia sido avisado sobre essa tentativa de filiação desde o dia 2 de agosto, por e-mail, e que as mensagens teriam sido abertas mas nunca respondidas. O Missão disse ainda que vai disponibilizar à imprensa e às autoridades um relatório com logs, e-mails e IPs para ajudar a identificar os responsáveis, e fez questão de registrar que não tem interesse em acolher em seus quadros um parlamentar que, segundo o texto da nota, "figura em acusações e suspeitas de envolvimento em esquemas de corrupção".
Do lado da campanha de Flávio, a leitura é de fraude. A advogada Maria Claudia Bucchianeri, responsável pela parte jurídica da candidatura, disse à GloboNews que "é inequívoco que foi fraudulento" e afirmou ter uma certidão emitida pelo próprio sistema do TSE mostrando que Flávio ainda constava como candidato do PL às 23h17 da quarta-feira (12), pouco antes da mudança. Segundo ela, ainda não há certeza sobre a origem exata da alteração. "Precisamos entender se foi hacker, uma venda de senha, alguém que entrou no sistema dolosamente, a gente não sabe", disse. A advogada recorreu a um precedente para contextualizar o caso: em 2022, durante a campanha presidencial daquele ano, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou a aparecer filiado ao PL no sistema eleitoral, episódio que, segundo ela, o ministro Alexandre de Moraes também tratou à época como possível fraude ou uso indevido de credenciais, e que levou a aprimoramentos no sistema da Justiça Eleitoral para evitar casos semelhantes.
Publicamente, Flávio reagiu em vídeo postado nas redes sociais horas depois de a mudança ser identificada. Na legenda, o senador afirmou que seus adversários "só sabem jogar sujo", mas que "não funcionou e nem vai funcionar". Na gravação, declarou: "Vocês viram aí que fraudaram a minha filiação partidária. O sistema vai tentar de tudo para me parar, mas não vai conseguir não, porque Deus está no comando e a gente vai conseguir juntos resgatar o nosso Brasil". O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, também comentou o episódio à GloboNews e falou em "falsificação", sem detalhar como a alteração teria ocorrido. Nos bastidores da legenda, segundo apurou a TV Globo, integrantes do partido atribuem o caso a um ataque hacker, mas relatos obtidos pela emissora indicam que a apuração inicial conduzida por pessoas envolvidas no caso também considera outras hipóteses além de uma eventual invasão aos sistemas da Justiça Eleitoral, e o TSE segue fazendo suas próprias verificações.
Na prática, enquanto o imbróglio não se resolve, o PL fica impedido de registrar a candidatura de Flávio. Segundo a advogada da campanha, o pedido de registro só poderá ser apresentado depois que a filiação partidária do senador for regularizada. "Ele está sem filiação regular agora. O Missão tem candidato. Tem que restabelecer a filiação original para poder fazer o registro", afirmou. O caso ganha urgência porque o prazo para o registro de candidaturas na Justiça Eleitoral termina às 19h deste sábado (15), o que deixa pouco tempo para que a situação cadastral de Flávio seja normalizada antes do fim do prazo. A candidatura do senador havia sido lançada sem a definição formal de um vice, tornando-se a principal aposta do PL para a disputa presidencial de 2026, na qual Flávio se apresenta como continuidade do projeto político do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e mantém críticas frequentes ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Até a publicação desta matéria, o TSE não havia se manifestado oficialmente sobre uma solução para o impasse.
Sources:
g1: Flávio aparece no TSE filiado ao Missão; PL diz não ter conseguido registrar candidatura e fala em fraude
Flávio Bolsonaro aparece filiado ao Missão em sistema do TSE; fraude impede registro da candidatura (Exame)
Mudança de filiação no TSE trava registro da candidatura de Flávio Bolsonaro (Correio Braziliense)
Sistema do TSE mostra Flávio Bolsonaro filiado ao Missão e impede candidatura (Brasil 247)
