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Brasil

AUGUSTO CURY é parceiro do PT?

Cury se declara de centro e rejeita rótulos de esquerda ou direita, mas a sigla que o levou à disputa presidencial apoiou formalmente Lula em 2022 e elegeu André Janones, hoje na Rede.

Por Flávio Cavalcanti · 05 set. 2026 às 12:26
AUGUSTO CURY é parceiro do PT?
A pergunta que circula nos bastidores da corrida presidencial de 2026 é direta: o escritor Augusto Cury, autor de best sellers sobre inteligência emocional e saúde mental, é de alguma forma ligado ao PT? A resposta, olhando para os dados disponíveis, tem duas camadas que não se confundem: a do candidato e a do partido que ele escolheu para disputar a eleição. Sobre si mesmo, Cury é categórico. Em entrevistas e no debate promovido pela Band em 23 de agosto de 2026, ele se define como "de centro", descrevendo-se como alguém de "mente capitalista e com um coração que cuida dos desvalidos". Ele rejeita explicitamente qualquer aproximação com lulismo ou bolsonarismo, chamando a disputa entre os dois campos de responsável por transformar o Brasil numa atmosfera de guerra política, e evita ataques pessoais a adversários de outros partidos. Já o Avante, sigla que o abriga, tem um histórico mais fácil de rastrear. Em 2022, o partido integrou formalmente a coligação que sustentou a candidatura de Lula desde o primeiro turno. No Congresso atual, o Radar do Congresso mostra que os cinco deputados federais do Avante votaram, em média, 88% das vezes ao lado do governo em 2026, um índice de governismo alto para os padrões da Câmara. O retrato não é uniforme dentro do partido: no Senado, o único representante da sigla, Marcos do Val, registra apenas 45% de alinhamento com o Planalto, mostrando que a legenda comporta posições internas bem diferentes. O Avante também é a legenda que projetou nacionalmente André Janones, eleito deputado federal em 2018 e reeleito em 2022 pelo partido, e que se tornou um dos aliados mais visíveis de Lula nas redes sociais nos últimos anos. Janones deixou o Avante em março de 2026, durante a janela partidária, e hoje está filiado à Rede Sustentabilidade, mas sua trajetória dentro da sigla ajuda a explicar por que o partido é frequentemente lido como próximo do campo governista. Esse tipo de configuração, um partido de centro que negocia apoio ao governo de turno em troca de espaço político, orçamentário e de cargos, é descrita pela ciência política como presidencialismo de coalizão, conceito cunhado pelo cientista político Sérgio Abranches para explicar por que presidentes brasileiros, raramente eleitos com maioria própria no Congresso, dependem de acordos com partidos médios e pequenos para aprovar sua agenda. A cláusula de desempenho, criada pela Emenda Constitucional 97 de 2017, também ajuda a explicar por que legendas de centro como o Avante buscam nomes de alta popularidade fora da política tradicional, caso de médicos, apresentadores e autores, para lançar candidaturas presidenciais: o desempenho eleitoral do candidato a presidente influencia a votação de legenda e, por consequência, a sobrevivência financeira e institucional do próprio partido. O que os números não permitem afirmar com a mesma certeza é que um voto em Cury equivale automaticamente a um voto que fortalece o PT, como se fosse uma conclusão matemática fechada. O comportamento de um partido no Congresso atual não é garantia de qual seria sua posição num eventual segundo turno em 2026, e a heterogeneidade interna do Avante, evidenciada pela distância entre os 88% de governismo na Câmara e os 45% do senador Marcos do Val, mostra que tratar a sigla como um bloco único simplifica uma realidade mais fragmentada. Fica, portanto, um retrato com duas partes que o eleitor pode pesar por conta própria: um candidato que se declara publicamente distante de PT e PL, e um partido cujo histórico legislativo recente mostra alinhamento reforçado com o governo Lula, ainda que não unânime internamente.
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